A Goparity é uma plataforma portuguesa de financiamento colaborativo que liga poupadores a projetos de impacto ambiental e social, registada na CMVM desde 2018. Este artigo confronta o que a plataforma promete com o que os números publicados e as opiniões de investidores mostram sobre rentabilidade, incumprimentos, comissões e impostos.
Fundada em Lisboa em 2017 por Nuno Brito Jorge, Luís Couto e Manuel Nery Nina, a Goparity nasceu com um modelo simples. Canaliza poupança de particulares para projetos que avancem os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, com energia renovável de pequena escala, agricultura regenerativa, eficiência energética e negócios sociais entre os setores que mais aparecem no catálogo.
Desde dezembro de 2018, a plataforma está registada na CMVM como intermediária de financiamento colaborativo. Obteve ainda, a 26 de janeiro de 2024, a validação para operar ao abrigo do Regulamento europeu 2020/1503 sobre prestadores de serviços de financiamento colaborativo (ECSP). Na prática, isto sujeita a Goparity às regras europeias comuns de transparência, gestão de conflitos de interesse e informação pré-contratual, com a CMVM como supervisora em Portugal.
O financiamento por dívida (crowdlending) é operado pela Power Parity, S.A., sob registo e supervisão direta da CMVM. As campanhas de capital (crowdequity) correm sob uma entidade licenciada distinta, a Bolsa Social, S.L., regulada pela CNMV em Espanha; os dois serviços não partilham a mesma licença, mesmo aparecendo lado a lado sob a marca Goparity.
Esse rótulo de “impacto” não é apenas discurso comercial: a empresa é certificada B Corp desde maio de 2021.
Segundo o relatório de impacto mais recente da plataforma, publicado em maio de 2026, mais de 53 milhões de euros já tinham sido financiados em mais de 430 campanhas, com 31.311 toneladas de CO2 evitadas anualmente. Não existe, porém, auditoria externa que confirme estes números. Vale a pena ter essa distinção presente ao lê-los como prova de impacto.
Cada projeto listado mostra o setor, o montante procurado, a taxa de juro (ou, no caso de capital, o múltiplo de saída estimado) e o prazo de reembolso. Na maioria dos empréstimos, o prazo vai de 6 a 24 meses, com juro fixo pago em prestações mensais.
Atualmente, o investimento mínimo por campanha de dívida está fixado em 10 euros, um valor que a própria plataforma já reduziu ao longo dos anos para tornar o financiamento de impacto acessível a carteiras pequenas. Os 20 euros que ainda circulam em referências mais antigas correspondem, na verdade, a outra coisa: o saldo mínimo exigido para ativar o Auto-Invest. Esse valor não é o investimento mínimo por projeto. Consoante o risco atribuído ao projeto, as taxas de juro dos empréstimos publicadas variam entre aproximadamente 6% e 9% ao ano. Projetos de capital mostram, em vez disso, um múltiplo de saída esperado, tipicamente entre 1,3x e 2,9x o valor investido, sem prazo fixo de reembolso.
Investir em projetos de dívida não tem comissão de conta nem custo associado. Goparity é remunerada através de uma comissão cobrada ao promotor do projeto; a exceção são os projetos de capital, onde a compra de participações implica um pequeno custo de transação suportado pelo investidor no momento da subscrição.
Um levantamento feito por uma investidora independente, que documentou a própria carteira num blogue especializado em finanças pessoais entre 2021 e 2023, ajuda a separar o marketing da experiência real de quem investe. A carteira soma 13.185 euros investidos em 97 projetos, com 1.020,71 euros de juros brutos recebidos até à data do balanço.
Dos 97 projetos, 14 já tinham sido totalmente reembolsados e 72 estavam ativos, a pagar normalmente. Os restantes 10 apresentavam atraso, cerca de 11% do valor da carteira em situação de mora no momento do levantamento. Apesar dos atrasos, a mesma carteira contribuiu, segundo o levantamento, para evitar 2.854 toneladas de CO2, a mesma métrica de impacto que a Goparity destaca no seu marketing.
No Trustpilot, Goparity tem 2,8 em 5 estrelas, com base em 151 avaliações. As críticas mais recorrentes não incidem sobre a taxa de juro em si; recaem sobre o que acontece quando um projeto deixa de pagar. Um investidor relata que três dos seus projetos entraram em incumprimento sem qualquer expectativa de recuperação, e outro descreve cinco dos seis projetos ativos em mora ou já sem pagamentos.
Vários comentários apontam ainda para uma questão de due diligence: promotores já em incumprimento numa campanha voltaram a aparecer a angariar financiamento numa campanha seguinte.
A Goparity publica agora, na sua página de Resultados, relatórios centralizados de incidentes e de desempenho de incumprimento sob o quadro ECSP, cobrindo os anos de 2023 a 2025. Esses relatórios oficiais complementam, sem substituir, os retratos parciais como o portefólio individual acima e os padrões que se repetem nas avaliações. O próprio relatório de impacto de 2025 da Goparity aponta uma rentabilidade média de 5,4% ao ano para os empréstimos já concluídos na plataforma, um número mais modesto do que as taxas anunciadas nos projetos ainda ativos.
O risco de crédito é o mais óbvio. A maioria dos promotores são pequenas empresas ou associações em fase inicial, sem histórico de crédito longo, o que explica juros mais altos do que um depósito a prazo e também os incumprimentos documentados acima.
Nenhum fundo de garantia de depósitos ou mecanismo equivalente cobre o capital investido. Se um promotor não pagar, a perda é do investidor.
Outro fator a considerar é a liquidez. A Goparity disponibiliza um Marketplace onde é possível vender posições em empréstimos em curso antes do vencimento, mas a venda depende de haver um comprador interessado e não está garantida; quem vende paga uma comissão de 1% mais IVA sobre o valor transacionado. Na prática, um investidor que precise do dinheiro com urgência ainda enfrenta risco de não encontrar comprador a tempo.
Fica também por resolver a questão levantada pelos próprios investidores nas avaliações citadas acima. Se um promotor com um projeto em incumprimento consegue lançar uma nova campanha na mesma plataforma, isso sugere que o processo de avaliação de risco não bloqueia automaticamente promotores com historial negativo. Esta é uma pergunta que a Goparity não esclarece publicamente e que continua sem resposta satisfatória nas fontes consultadas para este artigo.
Para investidores particulares residentes em Portugal, os juros recebidos de projetos com promotor sediado em Portugal estão sujeitos a retenção na fonte de 28%, aplicada automaticamente pela Power Parity, S.A. (a entidade gestora da Goparity), que entrega o imposto à Autoridade Tributária em nome do investidor. Para pessoas coletivas, a taxa desce para 25%.
Quando o promotor do projeto está sediado noutro país, o tratamento fiscal já não é uniforme: depende da legislação desse país e do que está previsto em eventuais convenções para evitar a dupla tributação, pelo que a Goparity não pode garantir isenção de retenção na origem em todos os casos. Nesse cenário, o investidor tem de declarar os juros no Anexo J, quadro 8A, da declaração de IRS, sob o código E21, indicando o país de origem, o montante bruto e qualquer imposto já pago fora de Portugal.
Todos os anos, a plataforma disponibiliza um relatório fiscal com estes valores organizados por projeto, o que simplifica o preenchimento mas não substitui a obrigação de declarar.
Abrir conta na Goparity segue os passos habituais deste tipo de plataforma:
Em caso de dúvidas, a Goparity disponibiliza o email [email protected] e o telefone +351 965 925 010, com atendimento nos dias úteis entre as 10h00 e as 12h00 e entre as 14h00 e as 17h00.
Fora do Trustpilot, o Portal da Queixa regista reclamações recorrentes sobre dificuldades de acesso à conta, incluindo um caso identificado como “não consigo fazer login”, e sobre atrasos na resposta do apoio ao cliente quando um projeto entra em incumprimento.
Em comunidades portuguesas do Reddit, como r/PortugalPessoal ou fóruns de literacia financeira, a presença da Goparity é escassa e pouco ativa em comparação com plataformas maiores como a Mintos ou a Bondora. Não há, nas pesquisas feitas para este artigo, um fio de discussão longo e específico dedicado à plataforma. Quando aparece, o conteúdo tende a repetir os mesmos dois temas do Trustpilot: satisfação com a proposta de impacto ambiental e frustração com projetos que deixam de pagar sem aviso claro.
Vantagens
Desvantagens
Quem procura financiamento colaborativo com registo CMVM tem, em Portugal, a Raize como comparação direta. Fora de Portugal, a Maclear oferece um modelo diferente: crowdlending suíço orientado a empresas europeias, sem o componente de impacto ambiental que define a Goparity.
Direcionada a PME portuguesas (fundo de maneio, investimento, antecipação de faturas e, cada vez mais, reabilitação urbana), a Raize está sob supervisão conjunta da CMVM e do Banco de Portugal. Nesta plataforma, o investimento mínimo é de 20 euros por empréstimo e as taxas de juro brutas rondam os 5% a 8% ao ano. Uma comissão de 10% a 12% sobre os juros recebidos reduz visivelmente o retorno líquido: um empréstimo a 6% bruto pode resultar em cerca de 3,7% líquido depois da comissão e do imposto. A própria Raize divulga que mais de 98% dos seus investidores têm retornos positivos, com um histórico de perdas que descreve como muito baixo desde o arranque em 2015 — uma taxa de sucesso que contrasta com os incumprimentos documentados na Goparity.
Suíça e membro da PolyReg SRO, a Maclear foca-se em empréstimos a pequenas e médias empresas europeias. A PolyReg supervisiona diretamente o cumprimento das regras contra o branqueamento de capitais da Maclear. A FINMA, por sua vez, supervisiona a própria PolyReg como organismo de autorregulação. A Maclear em si fica fora do âmbito de supervisão direta da FINMA.
O crédito ao consumo fica fora do âmbito da plataforma. O acesso custa mais: 50 euros no mercado primário e 30 no secundário, com juro fixo entre 14% e 16% ao ano, sem comissão de conta, depósito ou investimento no mercado primário; a única comissão é de 2,5% no mercado secundário, paga apenas por quem vende.
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Critério |
Goparity |
Raize |
Maclear |
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Regulação |
CMVM p/ dívida (Power Parity); CNMV p/ capital (Bolsa Social) — ambas ECSP, Reg. 2020/1503 |
CMVM + Banco de Portugal |
PolyReg SRO (AML); FINMA supervisiona a PolyReg, não diretamente a Maclear (Suíça) |
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Tipo de ativo |
Dívida (CMVM) e capital (CNMV) em projetos de impacto |
Dívida a PME portuguesas |
Dívida empresarial a PME europeias |
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Investimento mínimo |
10 € por campanha (20 € só para ativar o Auto-Invest) |
20 € |
50 € (primário) / 30 € (secundário) |
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Juro típico |
~6% a 9% (dívida) |
~5% a 8% bruto |
14% a 16% fixo |
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Comissão ao investidor |
Sem comissão em dívida (exceto 1% + IVA na revenda no Marketplace) |
10% a 12% sobre juros |
Sem comissão no primário; 2,5% no secundário (vendedor) |
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Retenção automática para residentes PT |
Sim, 28% (projetos PT) |
Depende do enquadramento fiscal |
Não aplicável (plataforma suíça) |
A Goparity é regulada em Portugal? Sim, e a supervisão tem duas camadas. A CMVM acompanha a plataforma como intermediária de financiamento colaborativo desde 2018, e desde janeiro de 2024 a Goparity opera também validada pelo Regulamento europeu 2020/1503, o mesmo enquadramento que cobre a Raize e outras plataformas europeias equivalentes. As campanhas de capital, especificamente, correm sob a Bolsa Social, S.L., licenciada pela CNMV em Espanha. A CMVM não supervisiona essa parte do negócio.
Qual é o investimento mínimo na Goparity? 10 euros por campanha de dívida, segundo o valor atualmente indicado na plataforma. Os 20 euros por vezes referidos correspondem a outra coisa: o saldo mínimo exigido para ativar o Auto-Invest. Não é o investimento mínimo por projeto individual.
A Goparity tem incumprimentos? Sim, de forma documentada, e a plataforma já publica relatórios oficiais sobre o tema. Avaliações no Trustpilot descrevem projetos que deixaram de pagar sem expectativa de recuperação, e o portefólio de uma investidora independente, analisado mais acima, tinha cerca de 11% do capital em mora no momento do balanço. Desde a introdução da página de Resultados, a Goparity também publica os seus próprios relatórios de incidentes e desempenho de incumprimento sob o quadro ECSP, ao lado das estatísticas de impacto que já publicava com regularidade.
Como declaro os rendimentos da Goparity no IRS? Depende da origem do projeto. Juros de promotores portugueses já vêm com os 28% retidos na fonte pela Power Parity, S.A., mas a obrigação de declarar pode ainda variar conforme a situação fiscal de cada investidor, pelo que vale a pena confirmar com um contabilista.
Já os juros de promotores estrangeiros seguem o tratamento fiscal do país de origem do promotor, que pode ou não aplicar retenção; em qualquer caso, têm de ser declarados no Anexo J, quadro 8A, código E21.
A Goparity é melhor do que a Raize para um investidor português? Depende do que se procura. Cobrando 10% a 12% de comissão sobre os juros, a Raize reduz o retorno líquido mesmo quando a taxa bruta é semelhante à da Goparity. Do lado oposto, o histórico de atrasos e incumprimentos que este artigo documenta acima pesa contra a Goparity, compensando a ausência de comissão em projetos de dívida. Nenhuma das duas garante o capital investido.
Consigo aceder à minha conta Goparity sem problemas? Na maioria dos casos sim. Existem, no entanto, queixas pontuais no Portal da Queixa sobre falhas de acesso à conta, normalmente associadas a passos de verificação de identidade ou a atualizações recentes da plataforma, o mesmo tipo de fricção que aparece nas avaliações negativas citadas na secção sobre opiniões de investidores. Se acontecer, o email [email protected] e o telefone +351 965 925 010 são os canais diretos de apoio, com atendimento nos dias úteis.